domingo, 26 de março de 2017

A motivação dentro do kung fu.

Esse é um momento de mudanças significativas para o que escola. Em janeiro meu mestre disse a mim que teríamos melhorado tanto até o próximo ano que aquelas coisas que nos enchiam com dores de cabeça, como a logística das viagens internacionais, seriam brincadeira de criança.

Eu tenho a impressão de que um ano se passou desde aquela conversa. Não chegamos ao ponto que mestre Júlio antecipou. Mas ainda nem estão em abril. Em três meses passamos pelo ano novo chinês junto ao grande clã Moy Yat Sang em São Paulo, pela visita de grão-mestre Lee Moy Shan ao Rio de Janeiro e, recentemente, pelo aniversário de grão-mestre Léo Imamura, também em São Paulo. Tenho visto uma grande evolução e todo o esforço de companheiros de jornada, como Cláudio Teixeira e Thiago Pereira (em seus nomes deixo os links de suas páginas).

Eu, Mestre Júlio Camacho e Cláudio Teixeira.


Meu mestre está entre as pessoas mais inteligentes que eu conheço (e quando eu falo de nível de inteligência, falo de nível de kung fu, porque kung fu é um tipo de inteligência). Por causa disso eu levo muito a sério quando ele diz algo tão preciso. Ainda assim confesso que no início do mês de março eu estava com medo. Nesse período eu voltei às aulas em minha faculdade e perdi o sono pensando no quanto meus estudos requerem energia e em como isso poderia atrapalhar um momento tão importante para nossa escola. 

Mestre Júlio Camacho, Thiago Pereira e eu (atrás da câmera)

Foi exatamente como imaginei. Logo na primeira semana de aula passei a estar sempre muito cansado. Entrei em um turbilhão e não sei descrever exatamente o que houve por algumas semanas. De repente eu estava em reunião com meu mestre e Thiago Pereira, e escutei:

- Pereira, falo isso para você. Depois que eu morrer os discípulos vão se reunir e lembrar dos meus feitos. Um grupo menor, de discípulos mais próximos, lembrará também do que eu não consegui fazer. E um grupo menor ainda vai saber que eu nunca desisti. São esses que levarão esse meu valor a frente.

Ilha do Fundão, onde estudo. O acesso até lá não é fácil. Umas das pequenas desistências é chegar até lá.


Honestamente, não sei porque isso foi dito ao Thiago. É algo da relação mestre-discípulo deles. Mas me afetou. Sempre desaprovei discursos motivadores. Por algum motivo esse, que além de não possuir caráter motivador não foi direcionado à mim, me motivou. Acho que as motivações se dão assim no kung fu, sem querer, ao acaso. Notei a grande quantidade de pequenas desistências minhas do dia a dia. E tenho trabalhado meu kung fu em função disso. Creio que essa seja uma das pequenas guerras desse ano, para alcançarmos aquele ponto, que meu mestre antecipou alguns meses atrás.